O CORDEL

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Criar é a arte

quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

CORAÇÃO DE ANA

Quando fui mãe, pela 1a. vez,  eu ainda era uma criança, apesar de ter 24.
Usei meu instinto para cuidar e proteger. Usei meu amor para suplantar minha inexperiência.
Nunca fui "aquela" mãe!
A comida não era das melhores.
Nunca soube esticar bem uma roupa.
Nem mesmo fazer bem a cama.
Muita pressa ao lavar a louça.
Nada de fazer bem uma faxina...
Não sabia ensinar a lição da escola.
Não gostava de ir às reuniões do colégio.
Mas sentava para ver os filmes infantis. Inventava músicas, falava com voz de criança...
Dançava junto.
Até vestia fantasia.
Meus filhos não iam pra escola com uniforme passado.
E mais,  até  acordavam e se vestiam sozinhos.
Não levavam lanche nem trocado.
Eu não desembaraçava o cabelo das meninas. Nem ligava se não gostavam dos brincos, babados e laços.
Dava banho sem descansar o almoço.
Deixava andar de pé descalço.
E dormir depois das 10h da noite.
Nunca bati num filho.
Nunca gritei com eles.
Nunca quis impor ordens, regras.
Nunca exigi que fizessem nada pra mim.
Nunca chantageei ou ameacei. Nunca propus que fizessem nada em troca de algo.
Sempre estive longe de ser a mãe exemplar.
Eu trabalhava fora e não me sentia menos mãe por isso. Meus filhos absorveram um exemplo libertador de mãe  que paga contas, compra presentes, não  deixa lhes faltar nada.  E quando está  em casa, é  só  deles.
Não me apliquei em ser a mãe que preparava pra vida, que educava, que impunha limites, que exigia obediência e respeito.
Nunca exigi a nota 10, o caderno bem cuidado nem mesmo estudar pra prova.
Fazia parte do meu ser deixá-los livres para serem o que quisessem.
Sempre gostei das folgas, dos feriados prolongados e das férias dos meus filhos. Porque sempre foi bom tê-los em casa. Nunca paguei colônias de férias, nunca fizeram viagens, não conheceram os pontos turísticos comigo.  Privei meus filhos de diversão, porque sempre fui daquelas que protegia demais. Muito neurótica com o perigo. Sei que isso foi péssimo!
Pra sair, só com identificação, telefone, nome e endereço dentro da roupinha.
Nada de se expor a riscos.
Deixei de me divertir e curtir com eles. Mas fiz o que o meu coração  pedia. Não conseguiria ser diferente.
Hoje meus 3 primeiros filhos cresceram.
Cortaram o cordão umbilical.
Tanta proteção... e hoje, não posso controlar seus passos.
Apenas confiar que estão guardados por Deus.
Não estou mais perto, à distância do esticar de um braço.
Minha vontade não é nenhuma lei. Na verdade, nunca foi.
São grandes o suficiente para sonhar e irem atrás de seus sonhos, libertos dos meus  medos e fortes o bastante para não nutrirem os seus.
Libertos da minha proteção excessiva, hoje, apenas vão! Ou não... Se quiserem.
Pois a vida me ensinou que mãe e pai são breve companhia.
Quando o filho encontra o caminho da liberdade, diz um tchau e segue só.